Lembras-te dos imensos pesadelos que tinha em criança? Daqueles que me faziam chorar, mesmo já acordada? Nunca percebi essa fase da minha infância. Nunca percebi por que razão monstros me assombravam os sonhos e me atormentavam as noites. Mas acho que hoje sei exactamente o papel daquelas horas mal dormidas. Estavam a preparar-me. Para o futuro, para as imensas tempestades que iria atravessar. Não sei se é por isso que tenho conseguido lidar com os problemas, mas estou certa de que todos os pesadelos com que me debati naqueles tempos me tornaram num ser humano mais forte. Tenho medos, muitos. Mas os monstros que me assaltavam à noite e me faziam tremer de medo, são hoje meus amigos. E mesmo que me custe admitir, agora que me abandonaram, sinto falta deles.
terça-feira, 26 de julho de 2011
observar-me
Passaria horas a observar pessoas. A vê-las caminhar, cada uma compenetrada nos seus pensamentos, alheias a tudo, como se o mundo a elas não dissesse respeito. Gosto de ver as expressões que divergem de um ser para outro. Cada rosto me leva a adivinhar um estado de espírito, e com algum esforço e atenção, era até capaz de imaginar a história que compõe cada um, observando atentamente cada feição, cada transparência de olhar. Talvez ninguém repare em mim, na minha humilde presença, no meu olhar atento. Mas eu observo todas as pessoas, detalhadamente. Existe uma reciprocidade de compreensão entre mim e quem passa à minha volta. Compreendemo-nos no silêncio, ajudamo-nos assim que os nossos olhares se cruzam.
Há dias, estava sentada à espera do autocarro, e senti que alguém me observava. Percebi o quão intimista é ser olhado por alguém que desconhecemos. Demorei até perceber exactamente de quem se tratava. Sentia-me invadida, exposta, como se quem me estivesse a ver soubesse mais de mim do que eu própria. Ficámos horas neste impasse, até que eu desisti. Perguntei quem era e responderam-me da maneira mais despreocupada que era eu. Para meu espanto, era eu quem ali estava. Aquele vulto anónimo, desconhecido, era eu a observar-me, a tentar compreender-me.
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