quinta-feira, 16 de maio de 2013


(...) Foi o meu confronto com a inevitabilidade da vida, naquilo que ela tem de mais injusto, com coisas que não controlamos, que nos ultrapassam e contra as quais nos sentimos terrivelmente inúteis e impotentes. Foi na verdade a primeira vez que me ocorreu com tanta clareza, que a vida e tudo o que nos rodeia pode mudar num segundo, que a felicidade é por natureza uma coisa efémera. Nestes últimos tempos, sinto que cresci não apenas porque isso faz parte de um processo natural de crescimento e amadurecimento decorrente da idade, mas porque fui forçada a fazê-lo. E como eu quis, inimagináveis vezes, trocar de lugar e sofrer pelos que amo! Embora, neste momento, as coisas tenham estabilizado e eu esteja otimista, alguma coisa mudou de forma definitiva em mim. Claro que continuo a fazer planos, a curto, a médio e a longo prazo, mas aprendi a valorizar cada coisa boa, em cada dia que passa. Aprendi a dar valor ao essencial, mais do que ao acessório, aprendi a valorizar mais aquilo que temos, do que aquilo que julgamos que se tivermos, nos fará mais felizes! 

terça-feira, 14 de maio de 2013

i'm still alive


Eram duas horas quando saí do café onde passei grande parte da minha noite. Quis largar os meus amigos e caminhar pelas ruas de Lisboa, guiada pela brisa quente que dominava aquela noite de verão. Sentei-me numa escadaria enorme, suja, degradada, retrato perfeito do tempo e da sociedade em que me encontro. Fumei e desfrutei do meu último cigarro com toda a calma e delicadeza. Foi a primeira vez que senti o verdadeiro sabor daquele vício. Liguei o meu leitor de música, volume no máximo, sonoridade pesada. Peguei no telemóvel e enviei uma mensagem à minha mãe a dizer que iria dormir em casa de uma amiga. Ligou-me de seguida para ouvir a minha voz e ficar mais descansada. Ainda com a banda sonora que descrevia a minha vida a soar-me aos ouvidos, agarrei numa pedra e perdi uns minutos a poli-la. Estava fria e perdida, tal como eu. Finalmente, agora com ela perfeitamente afiada, peguei na pedra e comecei a magoar-me. Não tive percepção da dor que aqueles ferimentos me causavam e por isso continuei. Continuei até sentir que estava aliviada. Ou melhor…até me deterem. Alguém se aproximou de mim e me arrancou a pedra das mãos. Ainda cedi, lavada em lágrimas, implorando que me deixassem. Não adiantou. Levaram-me para o hospital, com a roupa desgastada pelo sangue e os braços cortados envoltos numa camisa desconhecida. Comecei a sentir-me fraca, com dores, como se lentamente estivesse a desaparecer. Ninguém iria perceber as minhas motivações, as minhas angústias, os meus pensamentos. Mesmo que tentasse explicar-me, ninguém iria dar valor às minhas palavras dementes. A verdade é que eu não queria morrer. Só queria sentir na pele a sensação de estar viva.

volto amanhã


Entrei naquele hospital de forma rotineira. Há semanas que grande parte dos meus dias é passada naquele mundo, pelo que já não me causa estranheza. Cumprimentei rostos conhecidos e acenei àqueles que discretamente iam passando por mim. Bebi o meu café no local do costume, adiantei três páginas ao livro que ando a ler há meses e esperei que me chamassem para o ver. Apesar da tonalidade amarela do seu rosto, da falta de vida que comandava o seu corpo e da fraca disposição reflectida no seu olhar, pareceu-me ligeiramente melhor. A vontade de conversar, essa, continuava morta. Mas até ao silêncio já me habituei. Consigo compreendê-lo nos nossos diálogos mudos. E não preciso de palavras para ele me confessar o que lhe vai na alma, na cabeça e no coração. Conheço-o bem. E ele a mim. Por isso, nunca permaneço muito tempo a olhá-lo, assim sem força, frágil, vulnerável a tudo, até a ele próprio. Sei que não gosta, não condiz com o seu papel, com o seu ser.
Quinze minutos são o suficiente para a minha visita estar terminada. Fecho os olhos e beijo-lhe ternamente a testa suada. Não o abraço com medo de o magoar e saio do quarto mais lúgubre daquele corredor. Choro e agarro-me ao primeiro vulto anónimo que encontro. Limpo as lágrimas, recomponho-me e vou embora com um sorriso nos lábios por saber que passou mais um dia e ele cá está. Despeço-me de quem se dirige a mim, compro uma pastilha para anular a amargura que aquela visita me causou e apanho o primeiro autocarro para casa. Esta é a minha nova rotina. Volto amanhã.