Passaria horas a observar pessoas. A vê-las caminhar, cada uma compenetrada nos seus pensamentos, alheias a tudo, como se o mundo a elas não dissesse respeito. Gosto de ver as expressões que divergem de um ser para outro. Cada rosto me leva a adivinhar um estado de espírito, e com algum esforço e atenção, era até capaz de imaginar a história que compõe cada um, observando atentamente cada feição, cada transparência de olhar. Talvez ninguém repare em mim, na minha humilde presença, no meu olhar atento. Mas eu observo todas as pessoas, detalhadamente. Existe uma reciprocidade de compreensão entre mim e quem passa à minha volta. Compreendemo-nos no silêncio, ajudamo-nos assim que os nossos olhares se cruzam.
Há dias, estava sentada à espera do autocarro, e senti que alguém me observava. Percebi o quão intimista é ser olhado por alguém que desconhecemos. Demorei até perceber exactamente de quem se tratava. Sentia-me invadida, exposta, como se quem me estivesse a ver soubesse mais de mim do que eu própria. Ficámos horas neste impasse, até que eu desisti. Perguntei quem era e responderam-me da maneira mais despreocupada que era eu. Para meu espanto, era eu quem ali estava. Aquele vulto anónimo, desconhecido, era eu a observar-me, a tentar compreender-me.

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