Eram duas
horas quando saí do café onde passei grande parte da minha noite. Quis largar
os meus amigos e caminhar pelas ruas de Lisboa, guiada pela brisa quente que
dominava aquela noite de verão. Sentei-me numa escadaria enorme, suja,
degradada, retrato perfeito do tempo e da sociedade em que me encontro. Fumei e
desfrutei do meu último cigarro com toda a calma e delicadeza. Foi a primeira
vez que senti o verdadeiro sabor daquele vício. Liguei o meu leitor de música,
volume no máximo, sonoridade pesada. Peguei no telemóvel e enviei uma mensagem
à minha mãe a dizer que iria dormir em casa de uma amiga. Ligou-me de seguida
para ouvir a minha voz e ficar mais descansada. Ainda com a banda sonora que
descrevia a minha vida a soar-me aos ouvidos, agarrei numa pedra e perdi uns
minutos a poli-la. Estava fria e perdida, tal como eu. Finalmente, agora com
ela perfeitamente afiada, peguei na pedra e comecei a magoar-me. Não tive
percepção da dor que aqueles ferimentos me causavam e por isso continuei.
Continuei até sentir que estava aliviada. Ou melhor…até me deterem. Alguém se
aproximou de mim e me arrancou a pedra das mãos. Ainda cedi, lavada em
lágrimas, implorando que me deixassem. Não adiantou. Levaram-me para o
hospital, com a roupa desgastada pelo sangue e os braços cortados envoltos numa
camisa desconhecida. Comecei a sentir-me fraca, com dores, como se lentamente
estivesse a desaparecer. Ninguém iria perceber as minhas motivações, as minhas
angústias, os meus pensamentos. Mesmo que tentasse explicar-me, ninguém iria dar
valor às minhas palavras dementes. A verdade é que eu não queria morrer. Só
queria sentir na pele a sensação de estar viva.
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