terça-feira, 14 de maio de 2013

volto amanhã


Entrei naquele hospital de forma rotineira. Há semanas que grande parte dos meus dias é passada naquele mundo, pelo que já não me causa estranheza. Cumprimentei rostos conhecidos e acenei àqueles que discretamente iam passando por mim. Bebi o meu café no local do costume, adiantei três páginas ao livro que ando a ler há meses e esperei que me chamassem para o ver. Apesar da tonalidade amarela do seu rosto, da falta de vida que comandava o seu corpo e da fraca disposição reflectida no seu olhar, pareceu-me ligeiramente melhor. A vontade de conversar, essa, continuava morta. Mas até ao silêncio já me habituei. Consigo compreendê-lo nos nossos diálogos mudos. E não preciso de palavras para ele me confessar o que lhe vai na alma, na cabeça e no coração. Conheço-o bem. E ele a mim. Por isso, nunca permaneço muito tempo a olhá-lo, assim sem força, frágil, vulnerável a tudo, até a ele próprio. Sei que não gosta, não condiz com o seu papel, com o seu ser.
Quinze minutos são o suficiente para a minha visita estar terminada. Fecho os olhos e beijo-lhe ternamente a testa suada. Não o abraço com medo de o magoar e saio do quarto mais lúgubre daquele corredor. Choro e agarro-me ao primeiro vulto anónimo que encontro. Limpo as lágrimas, recomponho-me e vou embora com um sorriso nos lábios por saber que passou mais um dia e ele cá está. Despeço-me de quem se dirige a mim, compro uma pastilha para anular a amargura que aquela visita me causou e apanho o primeiro autocarro para casa. Esta é a minha nova rotina. Volto amanhã. 

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