Entrei
naquele hospital de forma rotineira. Há semanas que grande parte dos meus dias
é passada naquele mundo, pelo que já não me causa estranheza. Cumprimentei
rostos conhecidos e acenei àqueles que discretamente iam passando por mim. Bebi
o meu café no local do costume, adiantei três páginas ao livro que ando a ler
há meses e esperei que me chamassem para o ver. Apesar da tonalidade amarela do
seu rosto, da falta de vida que comandava o seu corpo e da fraca disposição
reflectida no seu olhar, pareceu-me ligeiramente melhor. A vontade de
conversar, essa, continuava morta. Mas até ao silêncio já me habituei. Consigo
compreendê-lo nos nossos diálogos mudos. E não preciso de palavras para ele me
confessar o que lhe vai na alma, na cabeça e no coração. Conheço-o bem. E ele a
mim. Por isso, nunca permaneço muito tempo a olhá-lo, assim sem força, frágil,
vulnerável a tudo, até a ele próprio. Sei que não gosta, não condiz com o seu
papel, com o seu ser.
Quinze minutos
são o suficiente para a minha visita estar terminada. Fecho os olhos e
beijo-lhe ternamente a testa suada. Não o abraço com medo de o magoar e saio do
quarto mais lúgubre daquele corredor. Choro e agarro-me ao primeiro vulto
anónimo que encontro. Limpo as lágrimas, recomponho-me e vou embora com um
sorriso nos lábios por saber que passou mais um dia e ele cá está. Despeço-me
de quem se dirige a mim, compro uma pastilha para anular a amargura que aquela
visita me causou e apanho o primeiro autocarro para casa. Esta é a minha nova
rotina. Volto amanhã.
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