domingo, 21 de agosto de 2011

coração

Tenho saudades tuas. Saudades de passar horas a confiar-te segredos, fazer-te confissões, mostrar-te o que sinto. Saudades de escutar o teu silêncio, essa tua voz muda que tem a capacidade de me tranquilizar. Talvez sejas o único que me compreende inteiramente. Não me julgas, não me magoas, não me desiludes. Ou se o fazes, é por minha inteira culpa e irresponsabilidade. Estás ao meu lado em tudo o que me diz respeito. É certo que fazes parte de mim, e por isso mesmo, é inevitável evitar a tua presença, mas a verdade é que passaste a conhecer-me melhor do que eu própria me conheço. Foi por isso que te deixei por uns tempos. Precisava de estar sozinha, tomar consciência da minha própria realidade e desprender-me da tua ajuda viciante. Tinha que aprender a pensar por mim, libertar-me dos teus dogmas e dos teus conselhos. Quis conhecer-me. Conhecer-me totalmente.
Mas cedo percebi que sem ti não existo, física e psicologicamente. És talvez mais imprescindível do que eu imaginava. E é por isso que tenho saudades tuas. Por saber exactamente aquilo que constituis para mim. Podes voltar, coração? Quero sentir-me viva outra vez. Literalmente.  


desenhado por: gonçalo martins

lágrimas

Não sei ao certo quantas horas estive a chorar. Sei que foram muitas, mas perdi a noção do tempo. Doem-me os olhos. Estão inchados e mal os consigo manter abertos. Mas sinto-me ligeiramente mais leve. As lágrimas estão longe de acabar e há um ano que, dia após dia, liberto algumas delas para me desprender da dor que sinto. Não me sinto melhor por adormecer com aquele sabor salgado que as minhas lágrimas deixam nos lábios. Mas a verdade é que me faz falta soltá-las. Precisamente por me fazerem, lentamente, sentir mais liberta. Pena que nem sempre isso aconteça. Estou a chorar agora mesmo … mas estou tão ou mais compenetrada na minha dor do que anteriormente. Mau sinal. Já nem as lágrimas me ajudam. Estou por minha conta.


terça-feira, 26 de julho de 2011

pesadelos

Lembras-te dos imensos pesadelos que tinha em criança? Daqueles que me faziam chorar, mesmo já acordada? Nunca percebi essa fase da minha infância. Nunca percebi por que razão monstros me assombravam os sonhos e me atormentavam as noites. Mas acho que hoje sei exactamente o papel daquelas horas mal dormidas. Estavam a preparar-me. Para o futuro, para as imensas tempestades que iria atravessar. Não sei se é por isso que tenho conseguido lidar com os problemas, mas estou certa de que todos os pesadelos com que me debati naqueles tempos me tornaram num ser humano mais forte. Tenho medos, muitos. Mas os monstros que me assaltavam à noite e me faziam tremer de medo, são hoje meus amigos. E mesmo que me custe admitir, agora que me abandonaram, sinto falta deles.

observar-me

Passaria horas a observar pessoas. A vê-las caminhar, cada uma compenetrada nos seus pensamentos, alheias a tudo, como se o mundo a elas não dissesse respeito. Gosto de ver as expressões que divergem de um ser para outro. Cada rosto me leva a adivinhar um estado de espírito, e com algum esforço e atenção, era até capaz de imaginar a história que compõe cada um, observando atentamente cada feição, cada transparência de olhar. Talvez ninguém repare em mim, na minha humilde presença, no meu olhar atento. Mas eu observo todas as pessoas, detalhadamente. Existe uma reciprocidade de compreensão entre mim e quem passa à minha volta. Compreendemo-nos no silêncio, ajudamo-nos assim que os nossos olhares se cruzam.
Há dias, estava sentada à espera do autocarro, e senti que alguém me observava. Percebi o quão intimista é ser olhado por alguém que desconhecemos. Demorei até perceber exactamente de quem se tratava. Sentia-me invadida, exposta, como se quem me estivesse a ver soubesse mais de mim do que eu própria. Ficámos horas neste impasse, até que eu desisti. Perguntei quem era e responderam-me da maneira mais despreocupada que era eu. Para meu espanto, era eu quem ali estava. Aquele vulto anónimo, desconhecido, era eu a observar-me, a tentar compreender-me.